Dona hipnose e os seus mitos
Psicologia

Dona hipnose e os seus mitos

Desde sempre tenho a recordação do tema da hipnose como algo representado de forma aterrorizadora e exageradamente mágica nos livros, filmes e desenhos animados.

Era um tema estranho, do desconhecido, de certa forma relacionado com medo, controlo, do domínio sobre o outro e de um estado subconsciente semelhante ao sono, de olhos hipnóticos a rodarem sob a forma de espiral padronizada.

Dona hipnose e os seus mitos
Dona hipnose e os seus mitos

A comunicação da hipnose

É também curioso saber que, até as emoções são viciantes. Seja qual pensando bem, estas histórias, normalmente, assentavam numa dinâmica que incluía a interação entre um hipnotizador poderoso, com enorme capacidade de influência, e um hipnotizado submisso, apresentando resultados a curto e longo prazo.
A hipnose aparece assim como trama principal em várias produções cinematográficas e televisivas. Acontece que, ainda hoje existem produções que tratam deste assunto de forma séria, credível e com humor, mas o oposto também se aplica, onde o assunto é abordado de forma algo duvidoso, pouco ética, não diferenciando sequer as formas na qual se apresenta, como hipnose de palco/ entertainment/ ou clínica/ terapêutica.
As atitudes negativas e crenças distorcidas acerca da hipnose têm sido influenciadas grandemente pela forma como esta é comunicada, desde sempre, pelos media.
Tal facto levou a uma série de conotações erróneas que ficaram vinculadas a esta abordagem até hoje. E assim nasceram os mitos da hipnose!

A indústria cinematográfica e televisiva

Estes mitos são materializados e reforçados em histórias com um enorme caracter subliminar associado, tais como “Svengali” (drama e terror, Archie Mayo; 1931), “O Escorpião de Jade” (Woody Allen; 2001), “O Ilusionista” (Neil Burger; 2006), “Hipnos” (David Carreras; 2004), “A origem” (Christopher Nolan, 2010), entre outros.
Na indústria dos desenhos animados podemos enunciar o “Popeye, o olhar hipnótico”, “Cebolinha, o plano hipnótico”, “Pato Donaldo, Curso de Hipnotismo”, “Pica Pau, o hipnotizador”, incluindo o “Mogli, o menino lobo”.
Segundo a atual definição da Associação Americana de Psicologia (APA), a hipnose traduz-se num estado de consciência que envolve atenção focada e consciência periférica reduzida, caracterizado por uma maior capacidade de resposta à sugestão. É um estado mental ou um tipo de comportamento usualmente induzidos por um procedimento conhecido como indução hipnótica, o qual é geralmente composto de uma série de instruções preliminares e sugestões.
É uma psicoterapia que facilita a sugestão, a reeducação ou a análise por meio da hipnose.
Para além da Medicina, a hipnose é utilizada também na Psicologia, na Fisioterapia, na Odontologia, na Enfermagem e em outras profissões de saúde.

Dona hipnose e os seus mitos
Dona hipnose e os seus mitos

Os 7 mitos da hipnose

1. Hipnose é dormir?
O transe hipnótico é um estado modificado de consciência denominado de estado Alpha. Estas são ondas cerebrais comumente associadas a estados de calma e de recetividade, onde o corpo relaxa gradualmente.
Neste estado, diferente do sono fisiológico, há uma forte atividade elétrica no cérebro devido ao altíssimo nível de concentração em que o sujeito se encontra.
Hipnose, meditação, sonhar acordado, estar absorvido na leitura de um livro, ver televisão ou ouvir música, conduzir através de uma estrada conhecida chegando ao destino sem se recordar do caminho, estes são bons exemplos do estado alfa.

Hipnose e sono são estados de consciência completamente distintos. Durante o sono, não temos o controle dos nossos pensamentos. Já na hipnose, somos participantes ativos dos pensamentos.
São dois estados claramente distintos e a tecnologia moderna pode comprová-lo de inúmeras formas. Pelos denominados eletroencefalográficos de ambos, que mostram ondas cerebrais de formas, frequências e padrões distintos para cada caso, ou seja, revelam ativações cerebrais distintas.
Podemos citar o exemplo Daniel Amen, psiquiatra e autor do livro “Transforme seu Cérebro Transforme sua Vida”, que com a sua técnica SPECT (Single photon emissíon computed tomography) que mede o fluxo sanguíneo no cérebro e os padrões de actividade metabólica.
Numa sessão de hipnose clínica, o paciente está de olhos fechados, logo, associa-se ao ato de dormir. O indivíduo fecha os olhos para se desfocar das distrações externas e concentrar-se mais ativamente nas orientações de quem facilita a hipnose e no seu mundo interno, mantendo-se sempre acordado.
Segundo a literatura, o termo “hipnose” (grego hipnos = sono + latim osis = ação ou processo) foi introduzido por James Braid (1795-1860), médico e pesquisador britânico. Inicialmente Braid encontrou nesta abordagem técnica semelhanças a uma espécie de sono induzido. Mais tarde, após perceber de que se tratava de um equívoco, o nome “hipnose” já tinha criado “raízes” e manteve-se.
Desta forma, é importante que fique bem claro que hipnose não é uma espécie ou qualquer forma de sono.

2. A pessoa perde a consciência?
A hipnose não é um estado de inconsciência, mas sim um estado de consciência modificada. Um estado de “atenção focada”.
Este estado pode ser percebido e/ou sentido quando estamos envolvidos em tarefas do nosso dia a dia, ao ler um livro, ouvir música ou assistir a um filme.
Sempre que estiver tão focado, tão envolvido com algum projeto, assunto, fime ou ideia, ao ponto de se abstrair do que está à sua volta, está num estado de transe hipnótico.
Muitas pessoas têm a ideia formada de que na hipnose o indivíduo perde a consciência. De facto, isso não é verdade nem seria possível facilitar o processo sem a colaboração do paciente.
O transe hipnótico ocorre por uma dissociação consciente/inconsciente.

3. É possível eu não voltar do transe?
Sim, há quem acredite na possibilidade de a mente ficar presa naquele estado de transe, mas isso é totalmente impossível!
Em casos de transes mais profundos e agradáveis, a pessoa tende a não responder de imediato quando o hipnotizador a chama.
Apesar disso, não há risco de ficar para sempre em transe. Basta dar mais tempo ao hipnotizado para que ele volte. Dá-se o caso também de termos de facilitar o processo de emergir as vezes que forem necessárias para a pessoa sair daquele “sonhar” acordado.
Repare, todos nós entramos e saímos de estados de transe várias vezes ao dia, ao assistir a um filme, ao estudar, quando guiamos sem notar no caminho, ou seja, onde aplicamos um certo nível de concentração.
Não há risco de não acordar do transe, porque o corpo encarrega-se disso naturalmente.
Durante a sessão, o hipnotizado não perde a consciência. Ele apenas entra num estado elevado de relaxamento e de atenção, permanecendo acordado/a durante todo o processo, podendo até sair do transe sozinho/a.
O que pode acontecer é sentir-se tão bem, que não quer abrir os olhos no fim da sessão! De qualquer modo, os estados de hipnose não se sustêm por si só! Ou abre os olhos e emerge, ou adormece!

4. Posso ser hipnotizado contra a minha vontade?
Os media têm criado a ilusão de que o hipnotista têm poderes mágicos e misteriosos, ou ainda, sobrenaturais sobre as pessoas. Tal poder é falso e inexistente!
O hipnotizador num contexto terapêutico só pode induzir o estado de hipnose com o seu consentimento e colaboração. É você quem decide e/ou se permite, ou não, seguir as orientações do hipnotizador.
Se durante o processo desejar abrir os olhos ou falar, poderá fazê-lo tranquilamente!

5. O indivíduo hipnotizado é dominado pelo hipnoterapeuta?
Como em qualquer relação terapêutica, a hipnose clínica é uma parceria de confiança estabelecida entre hipnoterapeuta e o sujeito, logo se o sujeito não quiser ser hipnotizado, nada pode ser feito em contrário.
Na hipnose, o estado de transe é uma auto-hipnose, ou seja, o hipnotizador é um facilitador. Trata-se de alguém ao lado da pessoa enquanto o seu sistema nervoso faz o trabalho.

6. O hipnotizado confessa segredos sem querer
Mesmo em transe, a mente mantém – se sob vigilância e, dessa forma, protege a integridade das pessoas.
Alguma orientação que venha fora do contexto ativa de imediato a mente consciente e saltam os filtros que não permitem o entrar da sugestão.

7. A hipnose é perigosa?
Com um hipnoterapeuta devidamente qualificado e com experiência no uso da hipnose em contexto terapêutico, o processo é seguro.
A hipnose clínica é uma terapia muito eficaz, natural, absolutamente segura e não apresenta efeitos secundários.
Certifique-se sempre de que o profissional (hipnoterapeuta) está devidamente credenciado, e tem formação específica em Hipnose Clínica!
De forma oposta, um hipnotizador sem formação específica na área e sem experiência clínica pode cometer alguns “deslizes” e atingir um objetivo diferente do proposto inicialmente.

Ultrapassados estes mitos e outras dúvidas, pode avançar de forma confortável, confiante e segura para esta abordagem.
Desde que a relação de confiança seja estabelecida, a parceria terapeutica e o trabalho de “equipa” avançam de mãos dadas.

Isabel Rebelo

Website

 323 total views,  3 views today

Redes Sociais - Comentários

Tags
Ver também
Close
Back to top button

Close
Close