Uma epidemia de tédio
Crónicas

Uma epidemia de tédio

Durante muito tempo foi considerado uma inevitabilidade e um tema pouco interessante de estudar. Agora, sabe-se que é uma sensação muito poderosa que nos pode levar longe, apesar de não ser certo em que direção – pode ser o pai de toda a criatividade ou de todo o perigo.

A 22 e 26 de outubro de 2016 houve dois incêndios florestais no condado de Macon, no estado americano do Illinois, na Carolina do Norte. Os fósforos encontrados no local fizeram os investigadores perceber que ali havia mão criminosa. Um habitante local não tardou a ser identificado como suspeito e foi interrogado por um agente florestal. Chamava-se Keith Mann e, apesar de começar por negar tudo, não tardou a admitir os crimes. Foi cândido quando questionado sobre os seus motivos. “Acho que estava entediado”, justificou o homem que arrasou mais de 16 hectares de floresta.

Este é o poder do tédio. Habituámo-nos a olhar para ele como um mal menor. Um incómodo que acontece quando temos muito tempo entre mãos e poucas ideias sobre como o ocupar. Mas o que nos últimos anos muitos investigadores têm percebido é que, afinal, este estado de enfado tem um papel maior na nossa vida – para o bem e para o mal – do que se achava à primeira vista.

Um dos investigadores que se tem dedicado a este assunto é Andreas Elpidorou, professor de Filosofia na Universidade de Louisville (EUA) e autor do recém-publicado “Propelled: How Boredom, Frustration, and Anticipation Lead Us to the Good Life” (“Impulsionado: como o tédio, a frustração e a antecipação nos conduzem à boa vida” – tradução livre, sem edição em português). Na obra, ele define o tédio como um estado desagradável em que nos sentimos frustrados, apáticos e insatisfeitos, que nos sinaliza que estamos numa situação insatisfatória e que, ao mesmo tempo, contém um forte desejo de fazer outra coisa. “Num estado de tédio, somos movidos a pensar em situações e objetivos alternativos que são mais interessantes e significativos para nós do que os atuais. Estamos ansiosos por deixar o tédio para trás. E se tudo correr como planeado, faremos exatamente isso”, considera o filósofo à “Notícias Magazine”. Esta é uma definição funcional de tédio: este estado psicológico desempenha um papel importante nas nossas vidas porque “é um alarme que nos informa que nos encontramos numa situação insatisfatória e sem sentido e, ao mesmo tempo, nos dá um impulso para fazer outra coisa”, defende.

É esse poderoso impulso de querer sair do estado de tédio que explica que muita criatividade nasça do aborrecimento, ao mesmo tempo que explica comportamentos como o do incendiário do condado de Macon, no Illinois. Andreas Elpidorou salienta ser importante distinguir entre o tédio como uma emoção – isto é, como um estado psicológico temporário – e o tédio como um traço de personalidade – a chamada “propensão para o tédio”.

“Como traço de personalidade parece muito perigoso e os indivíduos que se entediam com frequência enfrentam uma série de problemas psicológicos e podem causar danos a si ou aos outros”, conclui. Por outro lado, como emoção de curta duração, não é bom nem mau. O que pode ser bom ou mau é o que fazemos impelidos por essa experiência. “O tédio é um alerta. Diz-nos que não estamos a fazer aquilo que deveríamos – o que nos motiva a fazer outra coisa – mas nunca nos diz o que é essa ‘outra coisa’. É por isso que os resultados de uma experiência entediante são muito variados: pode resultar em ações pró-sociais e curiosidade, mas também pode levar alguém a comer demasiado chocolate, a consumir muito álcool ou a incendiar coisas.”

Particularmente durante a adolescência é reconhecida a correlação entre o tédio e comportamentos de risco, como o consumo excessivo de álcool e drogas.

Uma epidemia de tédio - revista amar - mundo (1)
Créditos © Engin Akyurt

O tédio da quarentena

Uma pesquisa feita no início de março, em Itália, a 3500 adultos em confinamento, destinada a avaliar a resposta de saúde pública e o comportamento dos cidadãos, chegou a uma conclusão surpreendente. O tédio é um dos efeitos colaterais negativos mais comuns das restrições. Foi a queixa mais frequente entre os inquiridos do que a solidão, a falta de ar puro, os conflitos familiares e a falta de atividades sociais.

Por todo o lado, multiplicaram-se as listas com conselhos para ocupar o tempo e evitar o aborrecimento durante o confinamento e distanciamento social. Mas a solução é um pouco mais complicada do que isso. “Aconselhar uma pessoa entediada a ler um livro ou ver um filme é como dizer a uma pessoa que se está a afogar para nadar até a praia. Se ela pudesse, era isso que faria”, resume John Eastwood professor de Psicologia na Universidade de York, no Canadá, onde dirige o Boredom Lab (Laboratório do Tédio). O investigador, coautor do livro “Out of My Skull – The Psychology of Boredom” (Fora do meu crânio – A psicologia do tédio – tradução livre), que vai ser lançado daqui a uns meses, garante que as soluções têm de ser individuais, porque o tédio que cada um sente não cede a conselhos genéricos: ele só pode ser superado encontrando atividades que expressem as nossas paixões e propósitos.

Muito modelos medem o tédio observando dois eixos: a nossa capacidade de encontrar significado numa tarefa e a nossa capacidade de lhe prestar atenção. Quanto menos formos capazes tanto de uma coisa como de outro, mais entediados nos sentiremos. Já Eastwood entende que os mecanismos psicológicos que verdadeiramente o causam são outros dois. Numa entrevista por email à NM, o autor expõe o seu ponto de vista: “O primeiro é aquilo a que Tolstoi chamou ‘o desejo de ter desejos’, ou seja, querer fazer alguma coisa que não é ‘fazível’ no momento; o segundo é uma mente desocupada ou aquilo a que alguns chamam ‘a dor dos poderes não utilizados’, porque a capacidade cognitiva da pessoa entediada está subutilizada”.

Este desejo de fazer coisas que não são possíveis de fazer pode explicar, em parte, as transgressões ao confinamento que têm acontecido por todo o Mundo. “Ainda não sabemos ao certo, mas pesquisas realizadas em Toronto, durante os bloqueios da SARS [em 2002], mostram que as pessoas relataram o tédio como sendo o motivo mais significativo para quebrar a quarentena”, esclarece o diretor do Boredom Lab.

Também o outro coautor de “Out of My Skull – The Psychology of Boredom”, o neurocientista canadiano James Danckert, da Universidade de Waterloo, aponta o não cumprimento do confinamento domiciliário como o maior risco do tédio por todo o Mundo, neste momento. “Normalmente, a maioria de nós encontra maneiras de lidar com eficácia com essa alerta que é o tédio. Mas em isolamento é muito mais difícil. Isso desafia a sensação de que controlamos as nossas ações. Um dos riscos, agora, é também que fiquemos cada vez mais frustrados, o que pode levar a ‘pavio curto’ e hostilidade”, afirma.

Mas há outro risco, ainda por apurar: o impacto que o tédio vai ter naqueles que já têm, mesmo sem pandemia e isolamento, uma propensão para se sentirem aborrecidos com facilidade. “Nessas pessoas que já sentem habitualmente uma série de consequências negativas do tédio, desde níveis mais altos de ansiedade e depressão até problemas com abuso de substâncias, só saberemos se esses problemas se vão agravar com o isolamento quando tudo acabar. Há já vários grupos de pesquisa, incluindo o nosso, a investigar isso neste momento”, revela o neurocientista. Ele frisa ainda que o “truque” para resistir, para aqueles que ainda se encontram em casa e privados da socialização normal, é encontrar pequenas coisas que possam dar sentido ao dia.

E “pequenas coisas” pode ser a expressão-chave aqui. Consumir Netflix o dia todo vai resultar por pouco tempo, mas também é preciso ter cuidado com objetivos muito ambiciosos. “Uma sugestão que tenho visto frequentemente passa por aconselhar as pessoas a aproveitarem para aprender um novo idioma. Embora isso pareça ótimo, normalmente leva meses e provavelmente requer interação com um falante nativo do idioma. Embora tudo isso seja possível online, deixa-me uma preocupação: o estabelecimento de metas demasiado grandes durante o confinamento pode levar ao fracasso, fracasso esse que só levará a mais frustração”, alerta James Danckert. “O meu conselho seria definir metas pequenas e alcançáveis, mas ainda assim importantes.” Uma lição que fica para os possíveis futuros períodos de confinamento.

Sofia Teixeira

NM

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