Histórias do Caminho de Ferro em Portugal - II
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Histórias do Caminho de Ferro em Portugal – II

Pouca Terra... Pouca Terra

O troço da ecopista do Carvoeiro nos arredores de Sever do Vouga revela um vale do Vouga encaixado entre serranias e o minifúndio onde as gentes de Lafões complementam o seu sustento, cultivando uma diversidade de culturas desde o milho às árvores de fruto, às framboesas e o famoso mirtilo. No seu livro O amor em armas, o escritor José Marques Vidal refere-se ao vale do Vouga, “onde a suavidade verdejante dos montes alterna com pujança úbere das várzeas, terras de madeira e pão.”

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Créditos: A. Lima

História do Caminho de Ferro em Portugal

Segundo José Ribeiro da Silva na sua obra intitulada Os comboios em Portugal – do Vapor à electricidade. “Entretanto é lançado o programa para a construção de uma linha férrea de Lisboa até à fronteira com Espanha, que por sua vez se ligaria a Madrid, passando por Santarém. Finalmente os trabalhos de construção tiveram o seu início oficial a 7 de Maio de 1853. O Governo determinou então que a linha partisse de um local conhecido na altura como Praia dos Algarves, num amplo terreno designado por cais dos soldados, onde existia um quartel de artilharia e onde ainda hoje se encontra a estação de Santa Apolónia. Só entre os anos de 1862 e 1865 é que seria concluída a – Estação Central de Lisboa – Cais dos Soldados, tendo mais tarde passado a designar-se por Lisboa – Santa Apolónia, nome pelo qual ainda hoje é conhecida.”

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Estação de S. Apolónia em Lisboa – Créditos: Direitos Reservados

 

Segundo o mesmo autor, “no dia 28 de Outubro de 1856 Lisboa viveu as horas solenes dos grandes acontecimentos nacionais, para os lados de Santa Apolónia, Xabregas e Poço do Bispo a festa foi rija abrilhantada por inúmeras bandas de música. O comboio que fez a viagem inaugural era composto por duas locomotivas (a Portugal e a Coimbra) e dezasseis carruagens que partiram da estação provisória do Cais dos Soldados até ao Carregado. Também em ambiente festivo se iniciou a viagem de regresso, recheada no entanto de algumas contrariedades que ensombrariam negativamente o entusiasmo da viagem, pois rebentaram os tubos da caldeira de uma das locomotivas. O percurso acabou por ser feito por uma única locomotiva e um número reduzido de carruagens, contando-se entre elas a do Rei D. Pedro V e da família real, tendo demorado duas horas a realizar a viagem de volta.”

Como podemos constatar, esta inauguração não decorreu sem algumas peripécias. A Marquesa de Rio Maior, Bemposta e Subserra, relata nas suas memórias, os vários percalços que aconteceram. “Vou narrar o que me lembra do solene dia da inauguração, que enfim chegou […] Como estávamos de luto pelo falecimento da minha querida Avó, minha Mãe não quis ir ao banquete do Carregado. Mas foi comigo para um cerro fronteiro à estação da Alhandra, ver a passagem do comboio em que meu Pai devia tomar lugar. Momentos de quase dolorosa ansiedade. Murmurava-se insistentemente que a ponte de Sacavém não podia resistir ao peso; que não se encontrara fundo em termos para os alicerces; que todos os dias dava de si. Esse terror, conjugado com um atraso enorme, punha os nossos corações em sobressalto, no pavor de que se tivesse dado uma catástrofe. Finalmente, avistámos ao longe um fumosito branco, na frente de uma fita escura que lembrava uma serpente a avançar devagarinho. Era o comboio! Quando se aproximou, vimos que trazia menos carruagens do que supúnhamos. Vinha festivamente embandeirado o vagão em que viajava El-Rei D. Pedro V. O comboio parou um momento na estação, de onde se ergueram girândolas estrondosas de foguetes; vimos El- Rei debruçar-se um instante, e fazer-nos uma cortesia; meu Pai, alegremente, acenou-nos um adeus rápido…”. “Só no dia seguinte ouvimos meu Pai contar, com aquele verve que lhe era peculiar em certas ocasiões, as várias peripécias dessa jornada de inauguração.

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Início das obras dos Caminho de Ferro de Lisboa – Créditos: Direitos Reservados

 

A máquina, escusado será dizer, das mais primitivas, parecia um enorme garrafão, não tinha força para puxar todas as carruagens que lhe atrelaram, e fora-as largando pelo caminho. Algumas, de convidados, nos Olivais. O vagão do Cardeal Patriarca, e do cabido, ficou em Sacavém; mais um, recheado de dignitários, ficou ao desamparo na Póvoa. Creio que se o Carregado fosse mais longe, e a manter-se uma tal proporção, chegava lá a máquina sozinha, ou parte dela. Foi pelas alturas da Póvoa que meu Pai passou para a carruagem real na qual chegou ao Carregado, onde assistiu aos festejos, e onde pôde comer, lautamente, porque o banquete era farto e também porque… passaram muita fome os que ficaram pelo caminho. Esses desprotegidos da sorte, semeados pela linha ao acaso das debilidades da tracção acelerada, só chegaram alta noite a Lisboa, depois de variadíssimas aventuras que encheram durante meses os soalheiros oficiais. Até andou gente com archotes, pela linha, em procura dos náufragos do Progresso”.

A história da Linha do Vouga – “O Vouguinha”

O Vouguinha continua a sua viagem turística pelo vale do Vouga evidenciando no seu périplo sobre carris as paisagens, as gentes e a sua história, a gastronomia e os monumentos edificados pelo trabalho árduo do homem. Já deixou para trás S. João da Madeira com as suas chaminés altaneiras e as claraboias das casas apalaçadas, habituadas a ver passar as fumaças das fornalhas e o silvo vaporoso das locomotivas da linha do Vouga. Os operários fabris mal distinguem os sons férreos do matraquear das máquinas, da inércia das carruagens nos carris à passagem do pouca terra. Perfila-se no horizonte Oliveira de Azeméis cercada de boas pastagens e de edifícios fabris encostados à linha, a qual viu nascer o ilustre escritor Ferreira de Castro. Uma obra marcada pela dureza da vida dos operários e dos seringadores, em A Lã e a Neve e Emigrantes. No caso dos primeiros, “A ludibriar o estômago e o tempo” e no caso dos segundos “Famintos de pão e de futuro”. Por isso, impõe-se uma visita à modesta Casa Museu dedicada ao escritor, na rua do Salgueiro – Ossela.

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Poço de Santiago – Créditos: Direitos Reservados

 

O caminho de ferro contribuiu decisivamente para o desenvolvimento das terras por onde passava. Sever do Vouga não foge à regra, aliado às belas e verdejantes paisagens serpenteadas pelo rio Vouga, este é um dos recantos mais bucólicos da terra portuguesa. Mas nem só de paisagem vivem as localidades, nesta terra de empreendedores destaca-se a requalificação da Estação de Paradela, bem ao lado da fábrica de massas alimentícias Vouga. No auge da linha chegavam 10 a 12 comboios por dia, a descarregar farinha para a fábrica. Pela mesma linha se fez o transporte do sal para o interior do país, o comboio assumia o seu papel marcadamente económico puxando pelo tecido empresarial da região. O potencial turístico da antiga linha passa pelo património edificado, sobretudo as pontes de travessia do rio, da Sernada, Poço Santiago – uma das mais belas pontes da linha do caminho de ferro – uma obra de arte em alvenaria, a de Pinheiro de Lafões, Vouzela e de Negrelos em São Pedro do Sul.

Eis que o Vouguinha chega a terras de Ulveira. Os vestígios foram-se apagando com o passar dos tempos; só alguém muito perspicaz descobre os poucos vestígios deixados pela antiga linha do Vouga. Em Oliveira Frades veio o abandono da linha e a extinção do caminho de ferro que era a entrada direta para as verdejantes terras de Lafões. Os próprios carris de ferro desapareceram, só mais tarde se dá a recuperação da estação de Ribeiradio, para albergar a Banda Marcial Ribeiradiense. Isto mostra que o Vouguinha ainda mora nos corações das suas gentes. E a requalificação das estações de Pinheiro de Lafões e Oliveira de Frades mostra o reconhecimento da memória do comboio nas populações. Em pleno centro histórico, podemos visitar a antiga estação em fase de requalificação, bem como o Museu das Técnicas Rurais – Museu Municipal de Oliveira de Frades.

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Dólmen de Antelas – Créditos: Direitos Reservados

 

As suas coleções são constituídas fundamentalmente por objetos etnográficos, seguindo-se depois o “Espaço Arqueológico”, onde estão expostos o espólio encontrado nas escavações do Dólmen de Antelas e da época castreja, mós e fragmentos de cerâmica, encontradas em vários castros e da época romana.

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Balneário Rainha D.ª Amélia nas Termas de S. Pedro do Sul – Créditos: Direitos Reservados

 

Nesta viagem pelos trilhos da linha do Vouga não podíamos esquecer a gastronomia rica e farta, com especial destaque para a Vitela de Lafões, as queijadinhas e os incontornáveis pasteis de Vouzela. Seguimos viagem a bordo da carruagem das memórias e até Vouzela é um salto de pardal. Vila pitoresca encaixada entre serras, com as suas casas brasonadas, primorosamente conservadas, onde podemos encontrar um brasão picado a mando do Marquês de Pombal, na sua implacável perseguição aos Távoras. O comboio entra na vila por mais uma imponente ponte em curva, cavalgando sobre o casario vouzelense, obra grandiosa e de difícil conceção, pois estava vencida mais uma etapa para levar o comboio aos planaltos de Viseu. A paisagem do vale do Vouga serve de enquadramento à estância termal de S. Pedro do Sul, uma estância das mais antigas do território português. Por lá passaram muitas personalidades ao longo da história, devido às propriedades curativas e terapêuticas das suas águas termais. S. Pedro do Sul, “a Sintra da Beira” no dizer de Camilo Castelo Branco, terá uma das estações de caminho de ferro mais importantes de toda a linha.

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Feira de S. Mateus em Viseu – Créditos: Direitos Reservados

 

No dia 5 de fevereiro de 1914, o comboio chegou pela primeira vez à cidade de Viseu vindo de Espinho. O apito da máquina ainda ressoa pelas pedras morenas da Sé Catedral. Uma cidade virada para o comércio, atrai todos os anos milhares de forasteiros à Feira Franca de S. Mateus, sendo Viseu terra farta e de trabalho, onde podemos encontrar os famosos vinhos do Dão, enchidos e o cabrito assado que vão à mesa hospitaleira do viseense. Podemos encontrar a sua riquíssima alma de artista no seu artesanato local, patente na Casa da Ribeira requalificada recentemente, tornou-se um espaço incontornável de preservação e renascimento das artes populares beirãs. Cestas, flores de namorados, bordados de Tibaldinho e renda de bilros são algumas das amostras de artesanato local.

Carlos Cruchinho

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