Auriculares sem fios: Os perigos
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Auriculares sem fios: Os perigos

Os auriculares sem fios venceram a batalha e conquistaram o mercado. Por serem mais portáteis, por garantirem cada vez mais fiabilidade, por poderem ser transportados para todo o lado com a maior das facilidades. Até por serem mais baratos – ou sobretudo por isso. No entanto, nem tudo é música suave para os ouvidos no que diz respeito aos auriculares sem fios. Especialistas dizem que deixam a desejar no que à qualidade diz respeito, a classe médica aponta-lhes graves focos de problemas.

Certo é que os fabricantes têm-se focado no desenvolvimento destes produtos, e a forte procura tem sustentado tal aposta. Um desígnio que a tecnologia parece estar a ter dificuldades em acompanhar. “É normal que os auriculares sejam considerados uma opção em crescendo. O conceito de ouvir música alterou-se, é possível ouvi-la em qualquer lado, sobretudo através de iPhone ou Android. Daí que os auriculares, nomeadamente os sem fios, tenham ganho um ascendente na escolha preferencial dos consumidores”, explica o especialista António Coutinho, da Digimagem, no Porto. Para segundo plano têm ficado os tradicionais auscultadores de haste, “mais indicados para quem gosta de escolher um ambiente tranquilo, em casa, para ouvir música”.

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José Lopes Marques, da Absolut Sound & Vision, admite que possam existir vantagens claras na escolha de um auricular. “Acima de tudo o conforto e a comodidade”, indica. No entanto, diz que são bem mais os contras que os prós, carregando, tal como António Coutinho, na tecla da qualidade, discussão a que dificilmente se poderá fugir quando o assunto são os auriculares mais em voga do momento.
“A plataforma de transmissão de um auricular nunca é exatamente igual às de outros meios. Pode até dar-se o caso de existir um bom amplificador, embora isso de pouco ou nada adiante. Claro que a versatilidade é importante e compreensível, claro que a comodidade é outro dos fatores a ter em conta pois permite enorme liberdade de movimentos. Mas essas vantagens não são tudo, a excelência do som jamais pode ser comparável”, descreve José Lopes Marques.

Micro-ondas no cérebro

A explosão de utilizadores tem sido tal que a Apple decidiu, em 2016, apostar em exclusivo na comercialização de auriculares sem fios. Com ligação por bluetooth, os AirPods foram imediatamente contestados por investigadores da Universidade de Berkeley, nos Estados Unidos, os quais lhes descobriram malefícios consideráveis. “É como se estivéssemos a inserir micro-ondas dentro dos ouvidos, lançando-as para o cérebro”, alertaram. Apesar de a empresa fundada por Steve Jobs ter vindo a público minimizar o problema, a questão ficou no ar. O mercado também não ficou muito abalado, com os últimos números a apontarem para cerca de 30 milhões de aparelhos vendidos em todo o Mundo.

O ano passado, novo estudo confirmou as más perspetivas. Duzentos e cinquenta especialistas elaboraram um documento, depois enviado às Nações Unidas e à Organização Mundial de Saúde (OMS), no qual apontaram os efeitos negativos do bluetooth, em especial os potenciais danos neurológicos.

Embora por outras razões, os mais puristas também olham com suspeita para os auriculares sem fios. “A música pode transmitir a quem a ouve uma imagem virtual que os auriculares não conseguem. É impossível! A qualidade, por muito que tenha aumentado, continua a deixar bastante a desejar.” A garantia é de Jorge Alves, audiófilo e proprietário da loja lisboeta Audio Team.

“Os sons pedem mais humanidade. Está estudado que os nossos ouvidos gostam de uma sucessão harmónica que apenas o analógico permite. Há cada vez mais análises feitas sobre o assunto, a chamada psicoacústica”, revela Jorge Alves. “Tal mestria só pode ser encontrada no vinil, o resto dos transmissores possuem ruídos que acabam por quase inconscientemente cansar o ouvinte.”

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Surdez mais do que provável

Para lá da questão harmoniosa, há o lado da saúde auditiva. “A exposição prolongada este tipo de dispositivos sobrecarrega as 20 mil células de cada ouvido, destruindo-as progressivamente e levando a danos irreversíveis a médio e longo prazo”, avisa o otorrinolaringologista Jorge Spratley. “Numa fase inicial, a perda de audição é quase impercetível. A partir sobretudo dos 50 anos as reservas celulares caem para números preocupantes e os problemas surgem inevitavelmente”, acrescenta o também presidente da Sociedade Portuguesa de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cabeça e Pescoço.

Em 2019, a OMS divulgou que em todo o Mundo mil milhões de jovens correm “sérios riscos” de surdez por ouvirem música demasiado alta. Os países mais desenvolvidos estão no centro das preocupações. E a geração que está a chegar aos 40 é das primeiras a sofrer as consequências, depois de anos exposta a “níveis inseguros de som”, diz a OMS, que nivela entre os 75 e os 100 decibéis a média de audição em suporte sem fios. “Um problema global de saúde pública”, define, lembrando que os 80 decibéis são a escala a partir da qual se pode considerar que o ouvido está em perigo e que o aparecimento de lesões pode facilmente suceder.

“Quinze minutos de música a cem decibéis correspondem a uma exposição idêntica à de um trabalhador industrial exposto a 85 decibéis durante oito horas”, exemplifica a OMS, qual retrato assustador que não precisa de legendas para explicar o perigo que está em causa.

A perda de audição traz também consigo outros problemas indiretos associados, até a nível psicológico. “Pode conduzir a isolamento social e a depressão, além de que um corpo estranho permanentemente enfiado no ouvido é propício a lesões na pele, como eczemas, devido ao contacto frequente com materiais como o plástico”, atenta Jorge Spratley.
Apesar dos alertas, os auriculares parecem firmes e sem concorrente à altura. “São cada vez mais vendidos”, confirma António Coutinho. O futuro dirá que consequências provocaram.

Pedro Emanuel Santos

NM

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