Nós não somos os nossos pensamentos
Psicologia

Nós não somos os nossos pensamentos

Pensamos continuamente

Quantas vezes temos pensamentos indesejados, incoerentes e que nos provocam dissonância interna?
O ser humano pensa continuamente e, na maior parte das vezes nem tem essa consciência. Comparamos, analisamos, julgamos, admiramos, explicamos ininterruptamente para poder decidir qual o melhor caminho.
Este modo de funcionamento está associado ao sistema automático de alarme e proteção que temos incorporado desde os nossos ancestrais. Esta resposta automática, ajudou à sobrevivência do homem quando o ambiente exigia reações físicas rápidas em resposta a ameaças como as dos animais predadores.

Afinal, sabemos que a cada minuto do dia, o nosso corpo reage fisicamente e muda literalmente consoante os pensamentos que passam pela nossa mente. Os acontecimentos do nosso dia fazem com que os pensamentos saltem e proliferem, passando para o campo da verbalização e/ou das imagens mentais.

Para termos uma pequena noção da força da nossa mente, está comprovado que um pensamento é um evento eletroquímico que ocorre nas células nervosas produtoras de um “turbilhão” de mudanças fisiológicas.
Sabemos que os pensamentos automáticos geram emoções “automáticas” que influenciam os nossos comportamentos, por isso estão diretamente relacionados com o nosso humor.

Acontece que estes pensamentos são espontâneos, infiltram-se na nossa mente sem que tenhamos qualquer “filtro” ou avaliação crítica. Apenas aceitamo-los como verdades.

Mas se os pensamentos estão dentro de mim, emergindo na minha cabeça, como é possível não os aceitar e não me identificar com eles?

Pensar e ter pensamentos um atrás do outro não é o problema. A questão põe-se ao nível da forma como eu me relaciono com os meus pensamentos.

Tentar parar os pensamentos

Sugiro que façamos um exercício. Tenha á mão um lápis/caneta e um papel onde possa escrever. Peço que pare 2 minutos, e anote todos os pensamentos presentes agora na sua mente, à medida que forem surgindo.

Agora, tente não pensar em nada durante 2 minutos. Mande embora os pensamentos assim que eles aparecerem.
De seguida, peço que se concentre mais uma vez e tente não pensar num elefante azul durante mais 2 minutos. Neste momento, provavelmente, já percebeu que não vale de nada tentar controlar os seus pensamentos.

Lembre-se que a mente e o corpo comunicam entre si através de imagens, por isso, qualquer coisa que imagine, o seu corpo vai responder como se estivesse realmente a acontecer. O nosso sistema nervoso e o corpo respondem aos pensamentos que a mente produz.

E pode até tentar ignorar esses pensamentos intrusivos durante algum tempo, mas o conflito que se vai gerando entre o ilusório e o real começa a tornar-se insuportável e a comprometer o seu bem-estar.

Tentar impedir a mente de criar pensamentos é contra produtivo, pois quanto mais tentar parar a mente de pensar, mais insistente ela se torna.

A solução não é tornar-me submisso aos meus pensamentos, nem fazer deles uns guias orientadores. A grande batalha de entender que não somos o que pensamos, é assumir a responsabilidade de questionar e interromper o curso destes pensamentos. É importante considerá-los como pensamentos e não como realidade.

As crenças e os automatismos cognitivos

Estes pensamentos surgem assim, automáticos, porque estão ligados às nossas crenças, aquilo que um dia alguém nos disse e que tomamos como verdade.

As crenças são verdades absolutas, não questionáveis na maioria dos casos.

À medida que crescemos, estas verdades vão, cada vez mais orientando a nossa história, moldando e fortalecendo os nossos pensamentos, comportamentos, atitudes, relacionamentos. Estão presentes também na forma como lidamos com as mais diversas situações que nos acontecem.

É comum sabermos de pessoas que não correm para alcançar os seus objetivos ou sonhos, porque acreditam que nunca vão conseguir alcançar os resultados expectados. Para justificar pensamentos e comportamentos, muitas vezes, é preferível acreditar que as nossas crenças são as corretas.

Por isso nos identificamos com o que pensamos e temos a sensação de que somos os nossos pensamentos. Mas não, nós não somos os nossos pensamentos.

Nós somos muito mais do que nos disseram que somos ou do que nós próprios pensamos ser. O que pensamos ser provém de coisas que ouvimos e aceitamos como verdade. A identificação com os pensamentos é o que mais nos faz sofrer.

Ao identificar um pensamento, é importante olhar para ele, deixar fluir através de si e não gerar mais pensamentos relacionados, não alimentar. Assim mesmo, aceitar que ele existe, mas que você não é esse pensamento.

Nós não somos os nossos pensamentos2 - Revista Amar - Toronto (1)

Observador objetivo dos seus pensamentos

O importante frente a uma emoção é saber que você não é a emoção, você sente a emoção. Então você diz “estou a sentir medo” e não “estou com medo” ou ”sou medrosa”.

Mas repare, se você parar para pensar o que está a causar esse medo? Talvez comece a conseguir controlá-lo. O medo é causado pela interpretação do pensamento que a pessoa tem do evento. O medo depende do impulso que o cria.

É pretendido que não se identifique com as suas emoções. Como observador, você identifica as suas emoções, olhando-as de fora. Não se identifique com a emoção, você não é a emoção, você cria a emoção e por isso sente a emoção.

É muito mais eficaz tornar-se um observador objetivo da sua mente. Uma forma de nos “descolarmos” dos nossos pensamentos, é perceber e verbalizar que se trata apenas de pensamentos. É simplesmente um pensamento e você tem poder sobre ele e ele não tem podersobre si.

Então, leve alguns momentos para, simplesmente observar o que a sua mente lhe está a dizer. Oiça o que ela lhe está a dizer. Não precisa de fazer nada, apenas oiça os pensamentos que atravessam a sua mente.

E o que é que ela lhe diz? Frequentemente o que acontece quando sai da sua mente e se torna um observador objetivo dos seus pensamentos, a mente tende a ficar silenciosa e sossegada. Esta técnica gera a dissociação e é muito eficaz, mas não para todos.

Mentes muito ativas ou obsessivas terão mais dificuldade em observar com calma o que a mente está a dizer. Nestes casos é muito mais eficaz entreter a mente com algo diferente de modo a distraí-la com outra tarefa e assim, desviar o foco.

Uma das qualidades da mente consciente consiste no facto de que ela só pode fazer uma coisa de cada vez, ou seja, processa em média, somente 5 a 9 focos de uma vez, ao contrário da mente subconsciente que capta milhares de focos de uma só vez.

Tirando partido deste facto, sabemos que a mente consciente não pode preocupar-se e estar calma e relaxada ao mesmo tempo. Isso seria um gasto de energia demasiado.

Assim, tem de ser um ou outro, alternando entre a preocupação e a calma. Mesmo oscilando entre pensamentos diferentes e, por vezes opostos, é possível de alguma forma direcionar a mente de modo a que ela se focalize em pensamentos mais desejáveis, ativando uma resposta de calma e relaxamento.

Você não é o seu cérebro

Jeffrey M. Schwartz, líder em neuroplasticidade e co-autor de vários livros inovadores tais como Brain Lock e The Mind and the Brain, foi pioneiro no primeiro programa de tratamento baseado em mindfulness para pessoas que sofrem de TOC (transtorno obsessivo compulsivo), ensinando os pacientes a gerir as suas compulsões, obtendo alívio a longo prazo.

Schwartz e a psiquiatra Rebecca Gladding co-autores do livro “Você não é seu cérebro”, onde apresentam um programa de quatro etapas para mudar maus hábitos, acabar com o pensamento doentio e assumir o controle de sua vida.

Schwartz e Gladding neste programa, mostram cuidadosamente aos seus leitores como identificar impulsos cerebrais negativos, canalizá-los através do poder da atenção concentrada e, finalmente, levar uma vida mais gratificante e empoderada.

Assim como as compulsões dos pacientes com TOC, eles descobriram que maus hábitos, ansiedades sociais, pensamentos auto depreciativos e excesso de compulsão estão todos enraizados em circuitos cerebrais hiperativos. A chave para fazer as mudanças na vida que você deseja é pôr o seu cérebro funcionar em seu benefício. É optar por, conscientemente não reforçar esses circuitos de atenção concentrada, diminuindo assim sua influência e força.

Técnicas de “atenção“

Ao ativar um estado de atenção e consciência plena do momento presente, você traz o seu corpo para o aqui e agora. É um exercício de foco sobre a capacidade de se concentrar no próprio “eu” e as sensações que surgirem, sem qualquer tipo de julgamento.

A auto hipnose, a meditação, o mindfullness, tornaram-se técnicas bastante populares por auxiliarem na redução do stress e ansiedade da rotina diária, na melhoria das capacidades de memória e concentração e, consequentemente, aumento da tranquilidade interna, autoconfiança, auto estima e da produtividade.

Estas são ferramentas podem ser aplicadas em qualquer lugar e em poucos minutos promovem uma melhor gestão dos pensamentos, logo das emoções e dos comportamentos, gerando felicidade, alegria, bem estar. Enfim, ativando emoções boas.

Isabel Rebelo

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