Portugal, embaixada do Mundo
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Portugal, embaixada do Mundo

Portugal, embaixada do Mundo Revista Amar - Portugal

Sentado ao piano, uma estante repleta de livros como pano de fundo e a luz natural a querer furar a janela da divisão em que se encontra, Chris Sainty, embaixador britânico em Lisboa, move-se só ao sabor das notas. Focado, pernas e tronco quase imóveis, absorto na música, desfia, ao longo de mais dois minutos, “E depois do adeus”, canção de Paulo de Carvalho que foi uma das senhas de Abril e que significa, para os portugueses, o que poucas podem. O vídeo do momento musical foi partilhado pelo diplomata no Twitter, rigorosamente a 25 de abril, e teve milhares de visualizações. Pouco depois, Sainty voltava às redes para nova performance. Desta vez, com Zeca Afonso a servir de inspiração, na icónica “Grândola, vila morena”. Ao piano, pois. As reações repetiam-se. À falta de mais, o cenário bastaria para ilustrar o enamoramento que o representante máximo do Reino Unido em Portugal tem vindo a desenvolver pelo nosso país desde que cá chegou, em janeiro de 2018, para assumir o cargo de embaixador. E para que não restem dúvidas: “Poderíamos falar sobre Portugal durante horas, gosto muito”, antecipa, como ponto de partida para a conversa.

Chris Sainty não o diz de ânimo leve. Ao longo de mais de dois anos, já investiu incontáveis dias e quilómetros a conhecer o país que o desarmou. Um fartote de viagens, um vasto leque de regiões a quererem seduzi-lo. E uma dificuldade acrescida para quem faz da diplomacia missão de vida. “Já estive em tantos lugares de que gostei que é difícil ser diplomático. Até porque depois há a rivalidade. Os tripeiros, os alfacinhas…”, atira, a mostrar que tem a lição bem estudada. Mas lá arrisca destacar alguns destes locais. “Gostei muito do Douro, do Alentejo, dos Açores, da Madeira, do Algarve, das cidades históricas do centro”, enumera, dando graças pela “escala”. “Pode visitar-se tudo com mais facilidade.”

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Chris Sainty, embaixador britânico Créditos © Reinaldo Rodrigues/Global Imagens

Depois, claro, o clima, sempre o clima, sobretudo se é dos britânicos que falamos. “Até porque nesse aspeto não temos padrões muito elevados”, brinca. Para o embaixador, a sensação de acordar e olhar o céu azul, ver o sol a brilhar sem freio, é inigualável. A comida também. Ainda mais por se tratar de um fã incondicional da gastronomia do Sul da Europa. “Mas Portugal é especial. O marisco, o peixe fresco onde quer que vamos. O bacalhau, claro.” E as pessoas, pois. Sentiu-o em particular à custa dos momentos musicais que foi partilhando no Twitter. Do tema de Paulo de Carvalho e da “Grândola”. Mas também de outros, que haveria de “lançar” mais tarde. Do “Porto sentido” de Rui Veloso, a “Lisboa, não sejas francesa” de Amália Rodrigues. “Em todas tive imensas reações. Os portugueses criam facilmente uma grande ligação emocional. São muito fortes no calor humano e fazem-nos sentir especiais. É algo pouco usual e a meu ver extraordinário.”

Não espanta, pois, que a música portuguesa seja outra das paixões declaradas deste britânico que visitou o país pela primeira vez em 2002, quando veio para passar férias com a família. Dessa vez “só estive no Algarve, claro”, ri-se, e aconselha todos os que venham no futuro a fazer… o oposto. “Sempre que tenho amigos ou familiares a virem cá o meu conselho é que não fiquem só pelo Algarve. Que explorem o país, a cultura, a arte, os castelos, os palácios, as aldeias do interior, a comida, a bebida, as próprias palavras.” E a música. Quanto às atuais limitações impostas pelo Reino Unido em relação às viagens para Portugal – todos os britânicos que venham para cá terão depois de sujeitar-se a um período de quarentena -, já fez saber, via Twitter, que torce para que o cenário possa mudar rapidamente. “Ninguém vai ficar mais agradado do que eu quando chegarmos a esse ponto.”

País de cinco maravilhas

Cai Run, embaixador da China em Portugal, já exerce o cargo desde 2015. Tempo de sobra para alimentar uma afeição ímpar pelo nosso cantinho. “Quanto mais tempo passo aqui, mais profundo fica o meu afeto por este país e pelo seu povo”, garante. Tanto que já aprendeu a ter na ponta da língua a resposta às muitas perguntas que lhe fazem. Cá e lá. “Há amigos portugueses que me perguntam: o que é que gosta mais de Portugal? Há também muitos amigos chineses que me perguntam: que tipo de país é? Respondo-lhes sempre que é um país de cinco maravilhas.”

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Cai Run, embaixador chinês Créditos: Direitos Reservados

A primeira das quais é, sem surpresa, o clima. “Portugal não sofre do frio extremo ao longo do inverno, nem do calor sufocante durante o verão. O clima agradável faz com que seja um bom lugar para viver, facto esse que já se tornou num cartão de visita”, sublinha Cai Run. Depois, as paisagens. Naturais e históricas. “A Serra da Estrela com neve, o sol e as praias do Algarve, o Mosteiro dos Jerónimos e a Torre de Belém”, locais que, assegura o diplomata, “encantam e tocam os turistas de uma forma profunda”. Cai Run fala com conhecimento de causa. Desde 2015, já esteve em todos os distritos de Portugal Continental, bem como nas ilhas. Ao todo, já visitou perto de uma centena de cidades portuguesas. Não se espanta, por isso, quando nota “um aumento constante dos visitantes chineses”. Até porque as gentes também vêm ao caso. O embaixador, que se orgulha de ter feito bons amigos em Portugal ao longo dos últimos anos, destaca as características “cordiais e amistosas, a atitude sincera e modesta, bem como a qualidade racional e inclusiva” dos portugueses. Traços que lhe inspiram até uma metáfora a roçar o poético. “Ao falar com eles, sinto-me tão aconchegado como se mergulhasse na aragem da primavera.”

A lista das cinco maravilhas não termina por aqui. Cai Run destaca ainda os bons vinhos portugueses. E as boas equipas de futebol. A propósito dos primeiros, realça uma curiosidade. “A pronúncia da palavra Portugal em chinês é ‘pu tao ya’, e ‘pu ta’ significa uva. Portanto, muitos chineses pensam em vinho ao ler o nome de Portugal.” De resto, conta que já teve oportunidade de visitar várias adegas no nosso país e não poupa elogios à “técnica enológica única”, que se traduz em múltiplos vinhos de qualidade. “Constatei com satisfação que cada vez mais vinhos portugueses estão a fazer parte da vida de milhares e milhares chineses.”

Por fim, o diplomata confessa o fascínio pelas “boas equipas de futebol” que temos. Uma sedução que nem surpreende, se olharmos para o leque de atletas e treinadores, nos escalões seniores ou nas camadas jovens, que têm vindo a ser recrutados cá para seguirem viagem rumo ao Oriente. Só não lhe peçam para escolher um clube. “Aqui tem-me sido feita uma pergunta dificílima: o senhor é sportinguista ou benfiquista? A minha resposta é: sou ‘portuguista’. Sou adepto do futebol português. Sem dúvida, o futebol é mais um cartão de visita. Cristiano Ronaldo tem cerca de sete milhões de seguidores nas redes sociais da China e a Madeira também está a ficar cada vez mais conhecida na China por causa dele.”

Mesmo admitindo que a beleza do país não pode caber toda nestas cinco maravilhas, Cai Run entende que elas ajudam a resumir as condições favoráveis para o país desenvolver cooperações amigáveis com outros. “Tenho muito orgulho em ser embaixador da China em Portugal e em dar o meu próprio contributo para a Parceria Estratégica Global China-Portugal, numa altura em que as relações entre os nossos países se encontram no seu melhor momento histórico.”

Arte e solidariedade

Já Florence Mangin, embaixadora de França, prefere começar por destacar a arte. Por ser uma apaixonada nata, percebe-se, mas também pela admiração face ao que de bom se faz nesta área, por cá. “Os portugueses são muito zelosos em relação ao seu património, ao seu legado artístico, aos palácios antigos. Têm um grande interesse na criação artística e muitas instituições dedicadas à arte. É lógico que o país tem outras prioridades económicas, mas penso que a devoção à arte é uma característica dos portugueses e que o interesse que há é assinalável.” A devoção, assinala, deriva também para profissões antigas, relacionadas com as artes. Florence fala da Fundação Ricardo do Espírito Santo Silva, da fábrica da Vista Alegre ou dos tapetes de Arraiolos. “Há técnicas que estão muito enraizadas e vão passando de geração em geração.”

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Florence Mangin, embaixadora francesa Créditos © Orlando Almeida/Global Imagens

Mas não há lista de preferências em que a gastronomia e a enologia não entrem. O caso da diplomata não é exceção, com a peculiaridade de que, para ela, essas duas características surgem intimamente associadas aos traços de carácter dos portugueses. A gentileza, o lado hospitaleiro, a abertura aos outros. “Entendo a gastronomia como um prolongamento desta atenção aos outros, do sentido de bem receber, de partilhar”, assinala Florence, que se assume como uma fã incondicional de camarão, bacalhau, atum (“de peixe no geral”, resume) e de algumas especialidades locais como a sopa alentejana.

Embaixadora de França há mais ou menos um ano, admite que ainda quer ter tempo para “descobrir todas as partes de Portugal”, mas o que já viu – Porto, Tavira, Évora, Peniche, Batalha, Alcobaça, Marvão, Portalegre, as ilhas – permite-lhe concluir que os portugueses têm outra característica que faz a diferença: o espírito solidário. “A atenção que os portugueses dão aos outros. Esse espírito estará mais desenvolvido aqui do que noutros países europeus”, arrisca Florence, que dá como exemplo as várias iniciativas que os portugueses, ora a nível individual ora através das empresas, têm levado ao cabo em tempos de covid.

De resto, quando tem amigos ou familiares a visitar Portugal, há uma recomendação que não dispensa. “Digo-lhes para caminharem por Lisboa. Para verem os muitos monumentos, que são incríveis. Mas para andarem a pé. Porque para sentirem realmente a cidade têm de se perder, de caminhar sem destino.” Para o Porto reserva outro rol de elogios. “É uma cidade com um espírito diferente. Gosto muito das casas antigas, ao pé do rio. Têm um charme impressionante. E gosto muito das igrejas, da Sé Catedral, da Casa da Música. Da Galeria da Biodiversidade também. É muito original.” Antes de assumir o cargo de embaixadora, há pouco mais de um ano, tinha estado cá apenas uma vez, para visitar a Expo 98 com a família, mas a estadia de curta duração bastou para lhe servir de prenúncio de tempos felizes. “Tenho grandes memórias desses dias. Foram fantásticos.”

A história que desarma

No caso de Lars Faaborg-Andersen, o máximo representante da Dinamarca em Portugal, o primeiro contacto com nosso país aconteceu bem mais cedo, algures no longínquo ano de 1975. Era o tempo do pós-25 de Abril (o diplomata não sabe precisar a data), de uma democracia que se ia impondo aos apalpões, de mudanças colossais, da Europa de olhos postos em nós pela proeza de uma revolução pacífica. “Era um tempo muito interessante politicamente e um local barato, simpático e quente para viajar.”

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Lars Faaborg-Andersen, embaixador dinamarquês Créditos: Direitos Reservados

Lars Faaborg-Andersen tinha uns 20 anos e rumou ao Algarve com amigos. Lembra-se que alugaram um espaço aos pescadores e que lá passaram quase um mês. Lembra-se da sardinha. E lembra-se de um país que nada tem a ver com o de hoje. “Nos anos 1970, era muito pobre e atrasado, com poucos turistas. Era o lugar mais barato para se viajar na altura”, faz notar. “Preferia o Algarve nesses dias”, diz, sem olhar à diplomacia.

Mas não lhe faltam motivos para ser fã do Portugal de hoje. “Há essencialmente três coisas que tenho de destacar: o clima, as pessoas e a história do país.” Em relação ao primeiro, gaba essencialmente “a luz do sol e o calor”. Das pessoas, diz que “são modestas, têm boas maneiras, são hospitaleiras e têm bom trato”. Encontra-lhes até traços em comum com os dinamarqueses. “No sentido de humor, por exemplo.” Em relação à história, deslumbra-o, acima de tudo, a época dos Descobrimentos. “Adoro sentar-me em Lisboa e observar os lugares que nos lembram da história. Como os grandes Descobrimentos dos séculos XIV e XV. É um país tão pequeno e conseguiu descobrir uma parte do Mundo e construir um grande império. Acho incrível.”

Depois, reconhece-nos outros pequenos encantos, que faz questão de ir descobrindo com tempo. “Adoro a vila de Marvão, o Palácio da Pena, conduzir ao longo da costa de Cascais até ao norte. Adoro o Douro, gosto muito das vinhas do Douro. Digo sempre aos dinamarqueses para não se ficarem só pelo Algarve, até porque acho que tem demasiada gente.”

A língua que é pátria

O maior lamento de Hermann Aschentrupp Toledo, embaixador do México em Portugal, prende-se precisamente com o facto de ainda não ter tido tanto tempo quanto gostaria para correr o país de lés-a-lés. Entregou a carta credencial ao Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, em dezembro de 2019, e pouco depois… veio a pandemia. “Ainda não tive muito tempo, mas já gosto de muita coisa. Desde logo das pessoas. Portugal tem gente muito boa, muito amável. Acho que foi a primeira coisa de que me apercebi. Nas ruas, nos lugares onde eu vou, as pessoas têm um trato muito distinto. Sempre que tenho oportunidade falo com pessoas de cá.”

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Hermann Aschentrupp Toledo, embaixador mexicano Créditos: Direitos Reservados

O entusiasmo é notório. O diplomata fala em português, como que a anunciar o segundo dos motivos que o deixaram rendido: a língua. Sendo que, neste caso, o amor surgiu há uma porrada de anos, era ele ainda um garoto a estudar na universidade. “Na altura tinha de escolher uma língua nova para estudar e não hesitei. Gosto muito dos sons e da língua portuguesa. E das palavras. Como a palavra saudade, tão difícil de traduzir. É uma língua maravilhosa.” O embaixador mexicano cita até Pessoa para comprovar o fascínio. “Ele dizia ‘a minha pátria é a língua portuguesa’ e eu concordo. Quando alguém chega a outro país e escuta a sua própria língua sente-se em casa.”
A primeira visita é que tardou. Apesar de ter feito grande parte da carreira diplomática no sul da Europa, acabava quase invariavelmente em Espanha, por ter família lá. Mas sempre ouviu dizer que Portugal era “muito bonito”.

Antes de assumir o cargo no nosso país, lembra-se até de ver a capa de uma revista de turismo que anunciava o seguinte: “Pais a descobrir este ano: Portugal.” E foi mesmo. Veio em trabalho, mas rapidamente se deixou fascinar por inúmeros prazeres. A gastronomia, claro. “Adoro o bacalhau. Principalmente com batatas a murro. Mas não fazia ideia que podia haver tantas formas de preparar bacalhau. E tenho muita inveja dos portugueses, por aproveitarem tão bem o mar. O peixe e sobretudo o marisco. No México não é assim”, atira, sem cerimónias. Confessa-se ainda rendido ao pão. “É o melhor que já comi.”

Hermann Aschentrupp Toledo realça igualmente a música, o fado em particular. “É uma música única, poética, melancólica. Diz muito das raízes culturais e do carácter dos portugueses. Acho que são um bocadinho melancólicos. E o fado reflete isso.” Lembra ainda as praias. “Muito boas, com areia fininha. Pena a água ser gelada”, diz, a rir. Mas também as cidades, as paisagens. “Estive no Porto três vezes e gostei muito. E gosto de Lisboa, do Tejo e da luz incrível da cidade. E do Alentejo. Já estive em Beja e Évora e também gostei muito.”

Da religião à cataplana

Para Mmamokwena Gaoretelelwe, embaixadora da África do Sul, a religião ocupa um espaço dominante na lista de preferências. “Cresci com o catolicismo e é muito importante para mim. Daí que essa seja uma das coisas que gosto cá, a religião católica.” E a importância dela no país. Também por isso admite ser fã de Fátima, “um lugar muito espiritual”. E das igrejas. “Acho que os edifícios mais bonitos que vi em Portugal foram as igrejas. Há igrejas mesmo muito bonitas.”

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Mmamokwena Gaoretelelwe, embaixadora da África do Sul Créditos © Orlando Almeida/Global Imagens

Mas a diplomata também confessa o gosto por outros atrativos bem menos espirituais. O clima, claro. As pessoas, que “são muito sinceras e gostam imenso de ajudar”. A gastronomia, pois. “Adoro cataplana. E vários pratos de bacalhau. E bochecha. Os vinhos são incríveis. E o pão, o pão é fantástico”, vai lançando, como se a enumeração fosse interminável. “Fiquei deslumbrada com o facto de cada região ter o seu próprio pão. Já provei em várias e gostei de todos.”

A lista ainda não termina por aqui. Mmamokwena Gaoretelelwe aponta ainda a segurança. “É um país muito seguro. Sentimo-nos livres para caminhar à vontade.” E a arquitetura. Lembra-se que quando, em dezembro de 2016, chegou a Portugal para assumir o cargo (antes, só cá tinha estado de passagem, numa escala de um voo para Londres, corria o ano de 1992), o que mais a impressionou foram precisamente os edifícios. “Desde obras do século XVIII a edifícios medievais.” Entretanto, já teve tempo para ver um pouco de tudo. E é precisamente aí, garante, que reside outro dos nossos encantos. “É um país muito bonito, em que cada região tem as suas características específicas. Lisboa, Algarve, o norte, os Açores, a Madeira, o interior. Há lugares fantásticos. É o Mundo todo num só país.”

Ana Tulha
NM

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