Harbourfront, em qualquer estação do ano
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Harbourfront, em qualquer estação do ano

O “Harbourfront”, isto é, a frente do lago Ontário entre as ruas Bathurst e Jarvis, é um dos meus lugares favoritos de Toronto e por onde gosto de deambular em qualquer altura do ano.

Quando me mudei de Almada, junto ao Tejo, para Toronto estávamos em agosto, e alguém me chamou a atenção para essa área, na Baixa da cidade, junto ao lago. Fiquei desde logo encantada com a proximidade da água, os barcos à vela, os iates nas marinas e os barcos de recreio circulando com passageiros ou ancorados nos cais convidando a um passeio.

Revista Amar - Harbourfront visto do lago
Harbourfront visto do lado – Créditos © Manuela Marujo

 

Passei muitas horas no Harbourfront nos primeiros anos vividos em Toronto, a passear com a minha filha, chegada à cidade com sete anos. Em qualquer estação do ano, havia uma variedade de programas para animar crianças e adultos. No verão, artistas, na rua ou em palcos ao ar livre, entretinham as pessoas junto ao cais com os seus malabarismos, danças, instrumentos musicais. No outono, atividades para festejar o “Halloween” aliciavam famílias nos fins de semana. No inverno, o ringue de patinagem no gelo enchia-se de multidões numa atividade nova para nós. Muitas barraquinhas ao ar livre vendiam comida étnica que nos atraía pelos aromas, cores e sabores, quando o tempo o permitia.

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Ringue de patinagem – Créditos © Manuela Marujo
Revista Amar - Toronto - Foto 6 - Barcos no cais
Barcos no cais – Créditos © Manuela Marujo
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Ringue de patinagem – Créditos © Manuela Marujo

 

Em dias mais ventosos e frios, nos ateliers do Queen’s Quay era possível observar os trabalhos em vidro, cerâmica, têxteis e outros que os artistas “em residência” executavam. Nas vitrines à volta, podíamos ver em exibição obras originais que nos causavam admiração.

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Edifícios na Queen’s Quay – Créditos © Manuela Marujo

 

No mesmo edifício, nas duas salas – o Brigantine’s Room e o Premiere Dance Theatre – assistíamos a filmes, espetáculos de dança e teatro. Foram inesquecíveis os anos 80 em que as atividades no Harbourfront captavam um público diverso, devido aos muitos festivais ali organizados que traziam artistas internacionais de renome. A maioria dos eventos eram de entrada livre e eu não parava de me deslumbrar com a qualidade da arte ao alcance de todos. Em 1987, foi inaugurada a galeria de arte contemporânea Power Plant, um exlibris do Harbourfront Centre, no prédio ligado ao teatro e que continua hoje com exposições de excelente qualidade.
Um dos eventos que, desde o início, também me chamou a atenção foi o Festival Internacional de Autores – hoje denominado TIFA (Toronto International Festival of Authors) -, que em 2019 festejou o seu 40º aniversário. Realizado em outubro, tem sido gratificante beneficiar da presença de autores como Mário de Carvalho, Mia Couto, José Luís Peixoto, Inês Pedrosa e outros escritores portugueses de grande reputação. Desde 2005, a maior feira literária do Canadá “The Word On The Street”, também tem lugar no espaço do Harbourfront. Na minha opinião, o mundo especial das palavras, livros e escritores não poderia ter encontrado local mais apropriado para ser devidamente desfrutado.

Apesar de um grande “boom” de construção nos anos 90, com prédios de habitação e comércio naquela área, e que continua até ao presente, as mudanças não impediram que o espaço junto ao lago fosse preservado para programas culturais e recreativos, acessíveis a todos. A construção do Molson Place, um anfiteatro ao ar livre com lugar para 2.000 pessoas, é um bom exemplo. Assistir, naquele palco, a espetáculos de jazz, capoeira, ballet, entre uma variedade de outros géneros artísticos, com o lago como pano de fundo, é um privilégio atingível a quem o desejar.

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Molson Theatre – Créditos © Manuela Marujo
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Power Plant – Créditos © Manuela Marujo
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Arquitetura arrojada – Créditos © Manuela Marujo
Revista Amar - Toronto - Foto 10 - Do artista Ali LeRoi
Peça do artista Ali LeRoi – Créditos © Manuela Marujo

 

Não me surpreende que a criatividade e a preocupação dos responsáveis por aquele espaço continue a chamar-nos para o local, mesmo em tempo de pandemia e restrições nas nossas vidas. Este fevereiro há duas exposições na Ontario Square, por detrás da Power Plant – uma de pinturas expostas nos painéis de cimento que a circundam, festejando o “Black Heritage Month”, celebrado este mês em todo o Canadá; e uma outra em áudio, de histórias narradas por vários contadores, em inglês e línguas nativas.

O Harbourfront nunca vai deixar de me suscitar interesse. Basta-me chegar lá e olhar a água azul do lago e as ilhas ligadas pelos “ferries” que me lembram os barcos cacilheiros, Almada e o Tejo. Só essas imagens bastam para me faz sonhar e fazer a ponte entre lugares que amo e definem quem eu sou.

Manuela Marujo

Professora Emérita da Universidade de Toronto

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